Investimentos que prometem 10% – 20% – 30% de retorno ao mês, a cada ano que passa aparecem novas “empresas” oferecendo essas ofertas tentadoras, porém elas nunca acabam terminando bem, deixando milhares de pessoas lesadas e evaporando o patrimônio de muitos em pouco tempo.

E essa história se repetiu em um pequeno país que fica no mar mediterrâneo, a Albânia. Nos anos 90 ocorreu um fenômeno onde surgiram dezenas de “empresas” que prometiam multiplicar o dinheiro em pouco tempo. 

Na época 1 milhão e meio de pessoas estavam com seu dinheiro investido nessas “empresas”, esse número pode parecer pouco comparando com a população de grandes países, porém a população da Albânia era de apenas 3 milhões de pessoas. 

Qual foi o resultado disso? Um rastro de destruição nunca antes visto. O país havia quebrado, grande parte da população perdeu todo o dinheiro que tinha, o governo caiu e uma guerra civil explodiu, deixando mais de 2 mil fatalidades. E ela só pararia por causa de uma intervenção militar das Nações Unidas.

Como foi possível acontecer tudo isso? E o que levou a esse desastre?

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Século de Transformações

A história da Albânia durante o século 21 foi muito conturbada, em 1912 o país se tornou independente do Império Otomano, em 1939 foi anexada pela Itália de Mussolini, e após o fim da segunda guerra mundial, acabou virando uma ditadura comunista.

O país ficou 40 anos sob o controle do Secretário Geral do Partido Comunista, Enver Hoxha.

Ao se voltar para o mundo comunista, a Albânia se beneficiou com centenas de milhões de dólares em ajuda financeira e empréstimos e também contou com a assistência de um grande número de técnicos e engenheiros enviados por seus aliados. A Albânia foi capaz de construir as bases de uma indústria moderna e introduzir mecanização para a agricultura. 

Por outro lado, o regime comunista aboliu quase todos os tipos de propriedade privada, estatizou indústrias, bancos e todo o comércio. Nessa época, os cidadãos albaneses não podiam possuir gado, carros ou apartamentos. Além disso, o acesso à empréstimos para indivíduos era extremamente limitado, sendo quase inexistente o mercado de crédito.

A Albânia foi ainda mais longe do que seus aliados comunistas, proibindo todos os meios de ganhar dinheiro com investimentos ou especulações. Mesmo algumas práticas que eram comuns em outros países comunistas, como loterias públicas, eram inexistentes na Albânia.

As transformações no país não pararam por aí, em 1991 a União Soviética colapsou, e o comunismo na Albânia também seguiu o mesmo caminho.

Junto com a chegada da democracia no país, também vieram as tentativas de transição de uma economia de planejamento central para uma economia de livre mercado.

Transição Econômica

Acenando para o ocidente, em 1993, a Albânia acolheu o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Desesperada pelos empréstimos oferecidos por essas instituições, o país teve que aceitar as condições impostas por eles.

Em 94 a Albânia conseguiu um empréstimo de 21 milhões de dólares com o FMI.

A Albânia teve que seguir as diretrizes impostas pelo Consenso de Washington – um conjunto de políticas que incluem a liberalização dos mercados, política monetária rígida e privatização de serviços públicos e infraestrutura.

Na teoria o governo albanês cumpriu com todas as diretrizes do FMI e do Banco Mundial, ganhando elogios no cenário internacional como um líder na reforma econômica.

Mas na prática isso foi diferente, o governo tentou uma terapia de choque que foi extremamente problemática, dada a ausência de instituições básicas de mercado e o longo período em que a propriedade privada foi abolida. Com isso, à medida em que vários órgãos de controle financeiro foram sendo recriados, não se sabia ao certo qual o papel de cada um, a desorganização tomou conta da área econômica do governo.

Outro enorme problema na arquitetura financeira do país era a falta de bancos comerciais, e como eles não funcionavam a muitos anos, também não existia regulação para eles, lentamente elas foram sendo implementadas porém da mesma maneira caótica que as outras leis e regulações.

Toda essa desorganização junto com a falta de fiscalização eficiente sobre bancos e empresas contribuiria para os fatos que aconteceriam no futuro.

Firmat Piramidale

Grande parte da população da Albânia não estava inserida no sistema financeiro do país, no início dos anos 90 para conseguir empréstimo com bancos “oficiais” era necessário ter garantias, o que os albaneses não tinham.

Foi aí que começaram a aparecer diversas empresas financeiras informais, que ficaram conhecidas no futuro como “FIRMAT PIRAMIDALE”, ou firma de pirâmide/pirâmide financeira. Essas “empresas” eram apenas registradas “oficialmente”, mesmo assim tecnicamente, todas elas eram ilegais porque não tinham as licenças bancárias necessárias. Mas as autoridades permitiram que elas funcionassem porque elas diziam não ser bancos oficiais.

Elas também se aproveitaram da fraca regulamentação e fiscalização financeira para operarem. 

Essas empresas não tinham qualquer compromisso com os órgãos do governo em relação a auditoria, documentação e informes de rendimentos. 

As empresas faziam empréstimos tanto para indivíduos, como também para outras empresas, e até mesmo para partidos políticos, o que no futuro seria catastrófico.

Além da parte de empréstimos (que se assemelhavam a agiotagem) as empresas possuíam uma área de “investimentos”, onde operavam os clássicos esquemas Ponzi (onde o dinheiro de novos investidores gerava retorno para os antigos) e que tinham as promessas de exorbitantes retornos futuros sobre os investimentos em outros ativos financeiros ou em empresas da economia real.

Segundo o Wall Street Journal, alguns dos esquemas de pirâmide estavam aparentemente envolvidos em lavagem de dinheiro, contrabando de petróleo, armas e drogas.

VEFA Holding Kompani

A principal empresa dos esquemas era a VEFA Holding Kompani, ela foi fundada em 1991 por Vehbi Alimuçaj. As principais suspeitas sob Alimuçaj que duram até hoje, é que ele seria traficante de armas.

Ele apresentava a VEFA como uma empresa capitalista, competitiva, mas também generosa e benevolente, declarando praticar o “capitalismo humano”.

A VEFA afirmava investir em vários ramos da economia, de fábricas de tijolos a granjas de aves, e pouco tempo depois gabava-se de ter expandido para negócios como, o turismo, supermercados, mineração, hotéis, times de futebol, construção civil, transporte marítimo e até uma banda folclórica.

A VEFA também afirmava ter 6 bilhões de dólares em ativos, 6500 funcionários e 17 filiais no exterior. Ela organizava festas extravagantes e anunciava em corridas da Fórmula 1 na Europa.

Além disso, a VEFA foi uma das principais financiadoras de campanha do Presidente Sali Berisha e do Primeiro-Ministro Aleksandër Meksi. As festas que a VEFA organizava recebiam dezenas de funcionários do alto-escalão do governo, e  a “empresa” ainda fazia publicidade no canal público de televisão da Albânia.

A mídia impressa também não escapou da influência da VEFA, a “empresa” inundou os jornais e revistas com anúncios e artigos falando sobre seus investimentos milagrosos, e a mídia ansiosa pela receita gerada, abandonou seus princípios e falhou em alertar os albaneses sobre os riscos associados com esses “investimentos”.

Em 1996, a gazeta Koha Jonë fez Vehbi Alimuçaj, o Homem do Ano.

Albarado, “O Milagre Econômico”

Alguns jornalistas não embarcaram na euforia da mídia e da população, esse foi o caso de Apollon Baçe, ele era extremamente crítico dessas “empresas” e das taxas de retorno absurdas que algumas ofereciam, ironicamente ele criou a palavra “Albarado” – uma combinação de Albânia com a lendária cidade de ouro El Dorado, que supostamente ficava na Amazônia.

Durante as privatizações que ocorreram no país, na década de 90, o governo doou apartamentos da era comunista para as pessoas que habitavam neles, e Baçe escreveu o seguinte artigo ironizando a situação:

“Quase todos os cidadãos de Albarado herdaram da terrível ditadura vermelha um apartamento, que a feliz democracia azul deu-lhes de presente. O valor do apartamento vermelho-azul é de 25 mil dólares.

Graças a uma fórmula matemática incrível feita pelas “empresas” o cidadão, em três meses, torna-se dono de quatro vezes 25 mil dólares, ou seja, 100 mil dólares!

Este é apenas o começo da generosidade infinita! Se ele deixar o dinheiro nas firmas de caridade (pirâmide) por mais três meses ele se torna o dono de 400 mil dólares. Até o final do ano, ele terá  3,2 milhões de dólares, no início do novo milênio, em 2000, passará a ser dono de 241 milhões de dólares. E pensar que são cinquenta mil apartamentos próprios nas mãos dos cidadãos de Albarado!” (Baçe 1996).

Tudo parecia estar indo maravilhosamente bem, de 93 a 96, o PIB da Albânia cresceu 40% no total, as pirâmides cresciam e conseguiam cada vez mais clientes, as pessoas que viveram sua vida inteira sob o regime comunista estavam ansiosas para o futuro capitalista, onde finalmente teriam a chance de prosperar, mas o país sendo o mais pobre da Europa, a educação era limitadíssima, e as pessoas sem entender no que estavam “investindo” acabaram entrando mais fundo no abismo, além de alguns venderem os apartamentos que receberam do governo, fazendeiros venderam suas fazendas e gado, e os outros tentavam vender tudo o que tinham para colocar nas “empresas”.

As contas nos bancos tradicionais eram esvaziadas às pressas para colocar o dinheiro nas “empresas”.

No auge das pirâmides, elas atingiram metade do PIB do país, com cerca de 1 milhão e meio de pessoas envolvidas, esse “setor” paralelo já era maior que o setor bancário oficial. 

Um delírio coletivo tomou conta do país, mas a realidade bateria na porta rapidamente.

1996: O Início do fim

No final de 1996, a ONU suspendeu as sanções econômicas contra a Iugoslávia, a Albânia era um dos principais países por onde passava o contrabando que ia para lá, e as pirâmides eram as principais empresas por trás disso. 

Após esse acontecimento, grande parte das receitas das pirâmides acabou, e elas tiveram que correr para levantar capital, qual foi a solução delas? Aumentar a taxa de rentabilidade para atrair mais clientes, mas a concorrência era grande, a cada reajuste, outras firmas também aumentavam suas taxas, e taxas que eram antes de 5% ao mês passaram para 50%, 100%, e algumas chegavam a prometer dobrar o capital em apenas dois meses. Além disso, novas pirâmides surgiam quase todas as semanas, oferecendo cada vez mais retornos absurdos.

Segundo documentos confidenciais da Embaixada dos EUA na Albânia para o Secretário de Estado Americano na época, o Banco Mundial alertou o governo da expansão descontrolada dos esquemas de pirâmide no setor bancário informal.

Um diretor do Banco afirmou que “o alto escalão do governo (incluindo o Presidente e o Primeiro Ministro), aparentemente falharam em perceber as consequências políticas de uma quebra da economia.” E ainda disse que quando informado sobre isso, “o Presidente riu” e depois disse que “Se as pessoas querem colocar o dinheiro delas nisso o problema é delas.”

O envolvimento do governo com as pirâmides estava claro aos americanos. Logo após isso, uma missão do FMI foi ao país para alertar a população sobre os esquemas ilegais e urgiu o governo a investigar todos eles. A reação foi imediata, no dia seguinte a primeira empresa pararia os pagamentos. Em apenas quatro meses todas as pirâmides entraram em colapso, derrubando com eles o governo do Partido Democrata e mergulhando a Albânia na anarquia.

E quem deveria proteger o país do caos? A polícia e as forças armadas, certo? Porém assim como a população civil, eles também estavam envolvidos nos esquemas e muitos também perderam tudo que tinham. Com isso, começou um processo de deserções em massa das forças de segurança do país.

Em resultado disso, delegacias de polícia e bases militares foram saqueadas e suas armas foram parar nas mãos de diversas gangues que começavam a dominar várias partes do país, e junto disso centenas de prisioneiros começaram a escapar de prisões. Estimasse que foram roubadas mais de 600 mil armas e mais de 1 bilhão de munições de todos os calibres.

O tesouro nacional também foi saqueado, em um local foi levado mais de 300 kg de ouro, e em outro mais de 6 milhões de dólares.

Em março e abril de 97, o Conselho de Segurança das Nações Unidas adotou as Resoluções 1101 e 1114, autorizando uma intervenção militar internacional na Albânia, a maior parte das tropas enviadas vieram da Itália.

Com ajuda da ONU, o exército Albanês conseguiu em alguns meses retomar o controle das principais áreas do país e recuperar parte dos equipamentos saqueados.

Mas o caos só viria acabar totalmente em 24 de Julho, com a renúncia do presidente Sali Berisha. 

E qual foi o resultado dessa revolta?

Os danos ao patrimônio causados por essa curta guerra civil, foram estimados em 200 milhões de dólares, mais de 2 mil pessoas perderam a vida e houveram entre 3 e 5 mil feridos. Os principais líderes das pirâmides foram presos, incluindo Vehbi Alimuçaj.

Parte do armamento das forças armadas nunca foi recuperado, rebeldes de origem albanesa utilizaram essas armas na guerra do Kosovo, que aconteceu em 1998.

Albânia hoje

Após o desastre das pirâmides, a Albânia demorou anos para se recuperar. Ela se aproximou ainda mais do ocidente, ela acabou entrando para a Organização Mundial do Comércio em 2000 e para a OTAN em 2009. Nesse mesmo ano ela entrou com um pedido para se tornar membro da União Europeia, porém ainda aguarda uma resposta do bloco.

Grande parte da população fugiu do país nos anos 90 e hoje o número de expatriados albaneses é enorme, estima-se que haja mais albaneses fora da Albânia do que dentro do próprio país. Em busca de uma vida melhor, eles foram para países mais ricos como Turquia, Grécia, Itália, e Suíça.

Em razão disso uma boa parte do PIB da Albânia vem de remessas de dinheiro do exterior, que vão para seus familiares. Segundo dados do Banco Mundial em 2020, 9,8% do PIB veio de remessas do exterior. Empresas de remessas internacionais como Western Union e MoneyGram são gigantes no país, elas junto com bancos e outras empresas do setor de serviços dominam mais de 50% da economia do país.

Que as lições da Albânia sirvam para um certo país que fica do outro lado do mundo, onde seu povo de tempos em tempos cai nas armadilhas da ganância e da falta de educação.