Um país um pouco maior que o Sergipe, com uma população de 8 milhões de habitantes, porém com mais da metade do PIB do estado de São Paulo.

Como um país tão pequeno conseguiu se tornar um dos líderes globais no mercado de alta tecnologia?

Seu sucesso nessa área é tão grande que o livro Startup Nation, ou Nação Empreendedora em português, acabou virando o seu apelido.

O primeiro ministro, Benjamin Netanyahu, atribuiu esse sucesso tecnológico do país a: necessidade de desenvolver inovações na área da defesa, a qualidade dos centros de pesquisas, ao seu pequeno tamanho, a cultura do aprendizado e da curiosidade e a sua história que demanda inovação para a sobrevivência.

A história do estado judeu em 14 de maio de 1948, com a declaração de independência do estado de Israel.

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PERSONAGENS FUNDAMENTAIS

David Ben-Gurion, quem declarou a independência do país, foi o primeiro chefe de estado, e principal organizador dos movimentos sionistas, sendo líder da Comunidade Judaica na então Palestina. Entre seus principais feitos estão, a vitória na guerra de independência contra os árabes, a criação de diversos assentamentos em toda a Palestina e também pelo acolhimento de centenas de milhares de refugiados.

Na área econômica, seu governo construiu a infraestrutura do país, estradas, fábricas, portos, a rede elétrica e moradia. O investimento maciço de Israel em projetos como o Portador Nacional de Água, que canalizava água do Mar da Galiléia no Norte para as áreas densamente habitadas no Sul, como o deserto do Negev, estimulou o crescimento do país.

De 1950 a 1955, a economia de Israel cresceu cerca de 13% a cada ano; ela oscilou um pouco abaixo de 10 por cento de crescimento anual na década de 1960. Não apenas a economia de Israel se expandiu, como a renda per capita da população cresceu exponencialmente.

O segundo personagem foi Shimon Peres, ele passou sua vida na política israelense, sendo ministro de diversos ministérios, primeiro-ministro e presidente. Na década de 50 ele idealizou a construção da indústria aeronáutica no país, em uma época em que havia escassez de leite e até de ovos, e milhares de refugiados vivendo em tendas. Os ministros chegaram a ridicularizar a sua proposta, falando que o país mal conseguia fazer bicicletas, quanto mais aviões.

Mas Peres não desistiu e conseguiu convencer Ben-Gurion a iniciar o reparo de aviões da segunda guerra, o que acabou culminando futuramente no lançamento da empresa Bedek, que se tornaria um dos maiores empregadores em Israel.

Peres tinha um fascínio pela industrialização de Israel, ele sabia da importância da disso para o desenvolvimento do País. Ele foi fundamental para a criação da indústria em diversos setores e no apoio ao empreendedorismo no país, além dele outros dois fatores levaram a esse desenvolvimento.  

Estado desenvolvimentista e a industrialização

Um dos primeiros empreendedores no setor de tecnologia em Israel, Yossi Vardi, atribui a industrialização do país ao boicote árabe e ao boicote de Charles de Gaulle, o primeiro cortava as relações com empresas que exportassem produtos para Israel e o segundo baniu a venda de produtos militares da França ao país. A França era o principal fornecedor do setor de defesa de Israel.

Esses fatores fizeram o país desenvolver sua própria indústria e a não depender das importações, isso era uma questão de necessidade, ao invés de mera preferência ou conveniência.

E como Israel também não podia exportar para seus vizinhos, eles foram forçados a exportar para mercados distantes, e com isso os empresários israelenses desenvolveram uma aversão a grandes produtos manufaturados que tinham altos custos de envio e tiveram uma atração por componentes eletrônicos e software.

Durante este estágio de desenvolvimento de Israel, o setor privado ainda não era o motor de desenvolvimento do país, mas sim o estado. De acordo com o economista israelense Yakir Plessner, uma vez que o governo saturou a economia com grandes gastos em infraestrutura, apenas os empresários poderiam impulsionar o crescimento; apenas eles poderiam encontrar “os nichos de vantagem relativa”.

A transição do planejamento central estatal para uma economia de mercado, segundo ele isso deveria ter ocorrido em meados da década de 1960. O período de vinte anos, de 1946 a 1966, quando a maior parte dos investimentos em infraestrutura de grande escala haviam sido feitos, estavam chegando ao fim. Em 1966, sem mais metas de investimento, Israel experimentou pela primeira vez um crescimento econômico próximo de zero.

Também segundo ele, isso deveria ter convencido o governo de Israel a abrir a economia à iniciativa privada. Mas, em vez disso, as reformas necessárias foram evitadas pela Guerra dos Seis Dias. Em uma semana de 6 de junho de 1967, Israel conquistou a Cisjordânia, a Faixa de Gaza, a Península do Sinai e as Colinas de Golan. Combinado, o território era mais de três vezes o tamanho de Israel.

De repente, o governo israelense estava mais uma vez ocupado com novos projetos de infraestrutura de grande escala. E como as forças armadas precisavam estabelecer posições nos novos territórios, gastos maciços foram necessários para instalações de defesa, segurança de fronteira e em infraestrutura. Foi mais um gigantesco programa de “estímulo” econômico. Como resultado, de 1967 a 1968, o investimento somente em equipamentos de construção aumentou 725%. O momento da guerra reforçou os piores instintos dos planejadores centrais de Israel.

A década de 70, ficou conhecida como a década perdida, com a Guerra do Yom Kippur em 73, fizeram Israel ser obrigada a tirar trabalhadores das empresas e até paralisar indústrias por seis meses, para reconstruir a infraestrutura destruída pela guerra.

Nessa época, também houve uma forte intervenção do estado na economia, o governo sustentou o preço dos salários artificialmente, era proibido a compra de moeda estrangeira fora dos bancos, até contas no exterior eram consideradas ilegais. Mas a medida que mais afetou a economia foi a o tabelamento de preços como o dos salários, produtos básicos e dos aluguéis, o que acabou levando o país a hiperinflação.

A situação começou a mudar em 1985, quando Shimon Peres, então ministro das finanças liderou um plano de estabilização desenvolvido pelo Secretário de Estado dos EUA, George Schultz e o economista do FMI Stanley Fischer. O plano cortou drasticamente a dívida pública, limitou os gastos, deu início às privatizações e reformou o papel do governo nos mercados de capitais.

Além dessas reformas a economia de Israel foi impulsionada no final da década de 80 e no início da década de 90 com chegada de imigrantes da União Soviética, eram 800.000 pessoas, um em cada três eram cientistas ou engenheiros, esta onda de imigrantes desempenhou um papel avassalador no setor de tecnologia israelense. Eles são um dos motivos pelos quais o país tem o maior número de engenheiros e doutores per capita do mundo.

Isso estimulou o crescimento do setor de tecnologia, as multinacionais atentas aos acontecimentos no país, buscaram parcerias e aquisições em startups israelenses

e estabeleceram centros locais de pesquisa e desenvolvimento. Hoje, existem 298 empresas multinacionais em Israel com centros de P&D, incluindo IBM, Intel, Apple, Cisco, Motorola e Microsoft.

Alta Tecnologia

A demanda global por tecnologias avançadas israelenses, como softwares de reconhecimento facial, dispositivos eletrônicos e semicondutores, estimulou o crescimento industrial, particularmente nas áreas de segurança cibernética, defesa e inteligência artificial (IA).

O governo israelense aproveitou esta oportunidade, fornecendo empréstimos a taxas baixas de seu orçamento de desenvolvimento para estimular um maior crescimento em todos os três setores. Desde então, Israel se tornou o centro global da tecnologia de mobilidade e segurança cibernética.

Estima-se que as empresas israelenses respondam por quase 40% das vendas globais de tecnologia de segurança cibernética, incluindo software antivírus, sistemas de prevenção de detecção de intrusão (IDPS), segurança de banco de dados e internet e outras soluções de defesa cibernética.

As empresas de segurança israelenses se destacaram ao se concentrarem nos desafios de segurança física e virtual do mundo real, bem como no combate à segurança cibernética automotiva, uma área de crescente importância para consumidores e fabricantes.

Para citar alguns, C2A Security, Mobileye, CyberArk, Check Point Software Technologies, Argus Cyber ​​Security e ThetaRay se tornaram as principais empresas em Israel por suas soluções inovadoras. C2A, por exemplo, fornece cibersegurança em veículos e garante que as comunicações em carros autônomos sejam seguras e protegidas.

A cientista, empreendedora e investidora Orna Berry, diz que a alta tecnologia se tornou um esporte nacional para ajudar o povo israelense a lutar contra a claustrofobia que é viver em um pequeno país cercado de inimigos.

O papel das forças armadas

A capacidade tecnológica de Israel está intimamente ligada às atividades de suas forças militares, incluindo o desenvolvimento de tecnologias de defesa. A Força de Defesa de Israel, ou IDF foi fundada em 1948 e suas realizações notáveis ​​incluem tornar Israel o oitavo país do mundo a lançar um satélite ao espaço e desenvolver o Iron Dome, que ganhou reconhecimento mundial por sua capacidade de interceptar foguetes com alta precisão.

Tal como acontece com os efeitos da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA) nos EUA, investimentos governamentais significativos em programas de pesquisa e desenvolvimento em Silicon Wadi, o Vale do Silício israelense, resultaram em uma forte influência empresarial no setor privado.

A IDF é única porque o serviço é obrigatório para todos os cidadãos, e sua estrutura enfatiza a estreita colaboração entre o Exército, a Marinha e a Força Aérea. A partir dos 18 anos, os israelenses são imediatamente expostos aos sistemas militares mais avançados e encarregados de planejar projetos e pensar em como melhorá-los.

Durante esse tempo, eles basicamente comem, dormem e sonham com a inovação. Imagine um país inteiro recebendo esse tipo de educação e treinamento intenso a partir dos 18 anos de idade! A falta de matérias-primas e fontes de energia e o tamanho restrito do mercado local poderiam ter dificultado o crescimento industrial na região, mas esses desafios foram superados pelo maior patrimônio de Israel: seu talento em engenharia.

A cultura da IDF – que enfatiza a improvisação, a colaboração, o trabalho árduo e o desenvolvimento de tecnologia complexa e multidisciplinar em prazos muito desafiadores – contribuiu significativamente para o sucesso de muitas startups de tecnologia na região.

Ao contrário do Vale do Silício, que se espalha por uma grande área, as universidades de primeira classe e a amplitude de talentos de Israel estão todas interligadas em uma pequena área geográfica onde todos se conhecem por meio do serviço militar. Isso fornece um pool de talentos locais de alta qualidade e torna muito mais fácil atrair funcionários, um problema que as startups enfrentam em todo o mundo.

O ex-CEO do Google, Eric Schimdt fez uma observação sobre seus melhores empregados, os comandantes de tanque israelenses segundo ele são os melhores executivos de engenharia em todo o mundo. Os comandantes de tanques são operacionalmente os melhores e são extremamente detalhistas. Isso se baseia em vinte anos de experiência – trabalhando com eles e observando-os.

Forças Especiais

Dentro das forças armadas se destacam as unidades especiais de inteligência.

Após a Guerra do Yom Kippur em 1973, a falha da inteligência em não prever o ataque árabe acabou servindo como um lembrete caro de que Israel devia compensar seu pequeno tamanho e população mantendo uma vantagem qualitativa e tecnológica na inteligência, eles fizeram isso usando os jovens mais talentosos do país e dando-lhes o treinamento em tecnologia mais intensivo que as universidades e os militares têm a oferecer.

A unidade de destaque da inteligência é a 8200, hoje ela que é focada em segurança cibernética. Ela conta com aproximadamente 5 mil soldados, a maioria de 18 a 21 anos.

Entre as operações da unidade 8200, se destacam a do vírus Stuxnet, usado para desabilitar as centrífugas de enriquecimento de urânio do Irã em 2010.

E a Operação Pomar que foi um ataque aéreo israelense em um reator nuclear suspeito na Síria em 2007, que utilizou sabotagem eletrônica em radares sírios por parte da 8200.

A Unidade é considerada por muitos como um incubadora para futuras startups de segurança cibernética de muito sucesso, dizem investidores e especialistas do setor.

Nas forças especiais, também se destacam o programa Talpiot, que é a elite da elite do exercito Israelense. Todo ano aproximadamente 2% dos melhores estudantes do Ensino médio do país são chamados para os testes da unidade.

Uma vez admitidos no programa, os cadetes da Talpiot entram em um programa universitário acelerado em matemática e física, ou em ciência da computação enquanto são apresentados às necessidades tecnológicas de todos os ramos da IDF, para que possam ter uma visão completa das necessidades tecnológicas e militares das forças.

Os Talpiots podem representar a elite da elite nas forças armadas israelenses, mas a estratégia por trás do desenvolvimento do programa é fornecer treinamento amplo e profundo a fim de produzir soluções inovadoras e adaptadas aos problemas do país.

Isso é evidente em grande parte das forças armadas e parece fazer parte dos costumes israelenses: ensinar as pessoas como ser muito boas em muitas coisas, ao invés de excelentes em apenas uma só coisa.

Educação

O ecossistema tecnológico israelense foi construído gradualmente nas áreas de Tel Aviv e Haifa, se destacam duas instituições acadêmicas: o Instituto de Tecnologia de Israel, o Technion e a Universidade de Tel Aviv.

O Technion, por exemplo, conta com um orçamento anual de U$ 460 milhões de dólares e é dividida em 18 departamentos, como os de Física, Matemática, Engenharia Aeroespacial, Biotecnologia e o departamento de química, que já revelou 4 ganhadores do prêmio Nobel.

Algumas inovações que surgiram no Technion foram, o Pen Drive, os algoritmos de compressão de dados, que são formatos de arquivos popularmente conhecidos como PDF, JPEG, PNG, ZIP e vários outros, o processador da Intel 8087, o avião israelense Arava e entre outras.

A contribuição da indústria de tecnologia para a economia de Israel, segundo dados do Banco de Israel.

A bolsa de Tel Aviv é composta por 40% de empresas de tecnologia

10% dos trabalhadores estão no setor, sendo mais de 330 mil.

15% do PIB e 43% das exportações vem dessas empresas.

Investimento em P&D é maior que a média dos países da OCDE, com 4,94% do PIB, contra 2,4%.

A HISTÓRIA DE COMO ISRAEL chegou onde está – com um crescimento econômico de 50 vezes em sessenta anos é na verdade, uma mistura poderosa de patriotismo dos seus fundadores, perseverança e consciência constante da escassez, das adversidades do país e a curiosidade e inquietação que têm raízes profundas em Israel e na história judaica.

Segundo o próprio Shimon Peres: “A maior contribuição do povo judeu na história é a inquietação.”