Armas de destruição em massa, esse foi o pretexto usado pelos EUA para invadirem o Iraque em 2003, esse pretexto serviu para mascarar os interesses econômicos e geopolíticos dos EUA no país. Após quase 20 anos da invasão, não foi encontrado nenhum sinal dessas armas.

Se as forças armadas americanas saíram de lá com as mãos vazias, não se pode dizer o mesmo de diversas empresas que tiveram contratos bilionários para a exploração do petróleo iraquiano. 

Antes da invasão de 2003, a indústria petrolífera do Iraque era totalmente nacionalizada e fechada às companhias petrolíferas ocidentais. Depois disso, o setor foi amplamente privatizado e totalmente dominado por empresas estrangeiras. Da ExxonMobil e Chevron a BP e Shell.

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Iraque e o petróleo

Na história moderna do Iraque, o estado do Iraque foi criado após a Primeira Guerra Mundial (1914-18) a partir das províncias otomanas de Bagdá, Basra e Mossul. Até 1932 ficou sob o domínio do Império Britânico, quando ganhou independência.  E a história do país não pode ser contada sem a sua principal riqueza, o petróleo.

O petróleo foi descoberto pela primeira vez no Iraque em 1927 perto de Kirkūk pela então Companhia Turca de Petróleo, uma empresa privada de propriedade estrangeira, que depois foi renomeada para Companhia Iraquiana de Petróleo, chamada de IPC em 1929. Descobertas em Mosul e Basra se seguiram, e vários novos campos foram descobertos e colocados em produção nas décadas de 1940 e 1950. 

Em 1968 subiu ao poder o Partido Socialista Árabe Baath através de um golpe de estado onde assumiu o poder Ahmed Hassan al-Bakr, o seu vice-presidente seria ninguém menos do que Saddam Hussein. Sob o mandato de al-Bakr, o Iraque experimentou seu período mais bem-sucedido de crescimento econômico com seus cidadãos desfrutando de padrões de saúde, habitação, educação e rendimentos comparáveis ​​aos dos países europeus. Uma das medidas mais importantes do governo seria a nacionalização da Companhia Iraquiana de Petróleo.

O governo estava envolvido em um conflito com a IPC por causa do controle dos campos de petróleo e discordava dos valores que recebiam da empresa.

Em 1969 o Iraque conseguiu negociar um tratado com a União Soviética que construiu um oleoduto para uma refinaria de petróleo e instalação de exportação de petróleo em al-Faw, no Golfo Pérsico, para melhorar as capacidades de produção de petróleo do Iraque. Este acordo sinalizaria o fim do domínio da IPC sobre os recursos petrolíferos do Iraque; também reforçou a crença de al-Bakr de que a empresa precisava ser nacionalizada. 

A empresa foi nacionalizada em junho de 1972, as principais empresas acionistas eram da França, Reino Unido, Holanda e EUA.

Após a nacionalização da IPC, a receita do petróleo do Iraque aumentou de 219 milhões de dinares iraquianos em 1972 para 8,9 bilhões de dinares em 1980. O Iraque aumentou sua receita de petróleo em mais de 40 vezes em menos de uma década. 

Em 1979 o Iraque acabou se tornando o segundo maior exportador de petróleo do mundo. O aumento da exportação de petróleo rejuvenesceu a economia do país; quase todos os índices econômicos aumentaram para níveis sem precedentes na história do país. De 1970 a 1980, a economia do Iraque cresceu quase 25%. 

Entretanto, as taxas de crescimento da década de 1970 não eram sustentáveis; o crescimento econômico dependia dos altos preços do petróleo e das capacidades de exportação de petróleo do Iraque, e uma vez que o petróleo fosse eliminado, o crescimento do Iraque diminuiria drasticamente.

Também em 1979, Saddam Hussein se tornaria o presidente do Iraque, iniciando seu regime ditatorial que durou 23 anos. Enquanto isso no vizinho Irã, o governo cairia para uma revolução fundamentalista islâmica, o que preocupava muito Saddam. A revolução era Xiita e ele tinha medo que ela poderia ser exportada para o Iraque, onde apesar da maioria da população ser Xiita era controlada pelo regime de Saddam que era Sunita.

Temendo isso, Saddam invadiu o Irã em 1980, começando assim a destrutiva guerra Irã-Iraque que duraria 8 anos. Durante a guerra com o Irã, as instalações de produção e distribuição de petróleo foram seriamente danificadas. O Iraque receberia suporte militar e econômico dos EUA, o presidente Ronald Reagan chegou a falar que não permitiria que o Iraque perdesse a guerra. Mesmo com esse suporte, ao fim da guerra em 88, o resultado foi catastrófico. Além das centenas de milhares de vítimas, estima-se que o Iraque teve perdas econômicas em torno de 500 bilhões de dólares.

Com a economia já fragilizada, a situação ficaria pior. Em agosto de 1990 o Iraque invadiu o Kuwait. A invasão foi motivada por desacordos sobre cotas de produção de petróleo, o Kuwait produziu mais do que o que era previsto pela OPEP e isso derrubou o preço do barril de petróleo, o que o Iraque viu como um ataque à sua economia, além disso haviam disputas sobre direitos de campos de petróleo, o qual o Iraque acusou o Kuwait de estar roubando o país.

A primeira resposta à invasão foram embargos da ONU que interromperam todas as exportações do Iraque. Sob o embargo, o Iraque exportou quase nenhum petróleo até 1996.

Em 1991, uma coalizão internacional liderada pelos EUA, expulsou o Iraque do Kuwait, no que ficou conhecido como a Guerra do Golfo.

Com o forte impacto das sanções e dos conflitos, a produção e exportação de petróleo do Iraque só chegaria perto dos níveis de antes da guerra do golfo no início do século 21.

Armas de destruição em massa

O Iraque possuiu um programa de pesquisas de armas de destruição em massa de 1962 a 1991, quando destruiu seu estoque de armas químicas e interrompeu seus programas de armas biológicas e nucleares, conforme exigido pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

No início do novo milênio os governos americano e britânico começaram a acusar o Iraque de continuar o seu programa de armas de destruição em massa. Porém hoje podemos afirmar que tudo não passou de uma verdadeira conspiração de altos funcionários do Pentágono para poder legitimar as ações americanas no Iraque.

Isso pode ser mostrado nas palavras do Vice-presidente Dick Cheney em duas ocasiões, uma antes da invasão em 2002, e outra após em 2003.

“Muitos de nós estão convencidos de que Saddam irá adquirir armas nucleares muito em breve. O quão cedo não podemos avaliar.” — Vice-presidente Dick Cheney, 26 de agosto de 2002

“Sim, eu falei errado… nunca tivemos nenhuma evidência de que ele tivesse adquirido uma arma nuclear.” — Vice-presidente Cheney, 14 de setembro de 2003

Se o antigo programa de armas de destruição em massa do Iraque realmente possuísse o nível de ameaça repetidamente proposto pelas administrações de George Bush e Tony Blair, certamente aliados históricos de EUA e Reino Unido, como França e Alemanha teriam se alinhado militarmente para desarmar Saddam Hussein se ele apresentasse esse nível de ameaça.

Além disso, apesar de mais de 400 inspeções irrestritas da ONU antes da guerra, nenhuma evidência substancial foi relatada ao Conselho de Segurança de que o Iraque estava reconstruindo seu programa de armas de destruição em massa. 

Em 6 de março de 2003, menos de duas semanas antes da eclosão da Guerra do Iraque, Hans Blix, o inspetor-chefe de armas da ONU, testemunhou ao Conselho de Segurança da ONU que “Nenhuma atividade proibida, ou o resultado de tais atividades, desde o período de 1998-2002 foram, até agora, detectados por meio de inspeções.”

No dia seguinte, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed ElBaradei, informou o Conselho de Segurança da ONU de sua descoberta: “Após três meses de inspeções intrusivas, até o momento não encontramos evidências ou indicações plausíveis do renascimento de um programa de armas nucleares no Iraque.”

Além das acusações sobre o programa armas de destruição em massa, outra teoria tomou conta do governo Bush. Eles afirmavam ter ligações ​​entre Saddam Hussein e a Al Qaeda, sugerindo que Saddam esteve envolvido no ataques às torres gêmeas.

Porém diversas agências de inteligência dos EUA e Reino Unido jamais produziram quaisquer evidências que mostrassem essa ligação.

Com essas duas teorias, os EUA e o Reino Unido declararam uma “ameaça iminente” à segurança nacional que foi usada para justificar o início da guerra. 

Os reais motivos da invasão

2 semanas antes da invasão, os inspetores de armas da ONU foram proibidos de retornar ao Iraque pelos EUA. Por que os EUA proibiram os inspetores de concluírem seus trabalhos?

De acordo com Hans Blix, “Se tivéssemos mais alguns meses [de inspeções antes da guerra], poderíamos dizer à CIA e a outras agências de que não havia armas de destruição em massa em todos os locais que eles disseram.”

Se isso ocorresse, as sanções da ONU de 1991 contra o Iraque acabariam totalmente, e o país já tinha diversos acordos contratuais com as empresas petrolíferas: como a Total (da França), Lukoil (da Rússia) e Sinopec (da China) para que iniciassem a exploração de óleo e gás no Iraque.

Além desses acordos, Saddam Hussein também já estava substituindo o dólar para a negociação do petróleo iraquiano utilizando o euro como moeda.

Obviamente, este não era um resultado aceitável para os governos dos EUA e do Reino Unido e para os poderosos interesses petrolíferos de empresas como a (BP, Exxon-Mobil, Chevron e a Shell) que influenciam tais decisões políticas.

O governo Bush simplesmente decidiu que era inaceitável que qualquer um dos “pretendentes estrangeiros do petróleo iraquiano” ganhasse o controle de cerca de 40 bilhões de barris de petróleo iraquiano – ou que esse petróleo fosse vendido em euros pelos franceses e talvez mais tarde pelos russos.

Após a invasão, o governo Bush apresentou a Resolução 1483 do Conselho de Segurança da ONU que propunha o fim das sanções contra o Iraque e concedia e o controle exclusivo dos EUA/Reino Unido da receita da produção de petróleo do Iraque através do Fundo de Desenvolvimento para o Iraque. 

A coalizão foi amplamente criticada por não implementar controles financeiros adequados e por não fazer gastos do fundo de maneira aberta e transparente. As acusações são de incompetência na gestão do dinheiro e corrupção em fraudes, empreiteiros ganharam milhões com contratos duvidosos e ainda bilhões de dólares que não podem ser devidamente contabilizados.

Um dos facilitadores do plano americano foi o iraquiano Admad Chalabi que vivia em exílio em Londres, ele foi o fundador do partido Congresso Nacional Iraquiano que tinha o propósito de fomentar a derrubada de Saddam Hussein. Chalabi deixou claro que recompensaria os EUA por remover Saddam com contratos lucrativos de petróleo, dizendo ao Washington Post que: “As empresas americanas vão ter uma grande chance no petróleo iraquiano.”

E o plano de Admad teve sucesso, ExxonMobil, Chevron, BP e Shell, as maiores companhias petrolíferas do Ocidente se estabeleceram no Iraque. O mesmo aconteceu com uma série de empresas americanas de serviços de petróleo, incluindo a Halliburton, empresa com sede no Texas na qual Dick Cheney (o vice-presidente) foi CEO de 1995 a 2000 antes de se tornar o companheiro de chapa de George Bush nas eleições de 2000. Bush também teve envolvimento no mercado de óleo e gás, ele foi executivo de uma empresa de exploração de petróleo no Texas.

E quais empresas seriam uma das grandes doadoras para a campanha Bush-Cheney nas eleições de 2000? Elas mesmas, as grandes petrolíferas, incluindo ExxonMobil, Chevron, BP e Shell. Elas gastaram mais dinheiro para colocar os colegas petroleiros Bush e Cheney no poder do que gastaram em qualquer eleição anterior. 

Pouco mais de uma semana após o início do primeiro mandato de Bush, seus esforços foram recompensados ​​quando o Grupo Nacional de Desenvolvimento da Política Energética, presidido por Cheney, foi formado, reunindo o governo e as companhias petrolíferas para traçar planos para o futuro energético do país. Em março, a força-tarefa revisou listas e mapas delineando toda a capacidade produtiva de petróleo do Iraque.

E esses resultados foram possíveis, graças a uma década de pressão das empresas petrolíferas. Em 1998, Kenneth Derr, então CEO da Chevron, disse: “O Iraque possui enormes reservas de petróleo e gás que eu adoraria que a Chevron tivesse acesso”. O sonho de Kenneth deu certo, e em 2022, a Chevron continua explorando petróleo no Iraque.

Pela primeira vez em 30 anos, as companhias petrolíferas ocidentais começaram a  explorar e produzir petróleo no Iraque a partir de alguns dos maiores campos de petróleo do mundo e colhendo enormes lucros. 

O que motivou o governo Bush a invadir o Iraque? A resposta simplista é um esforço para preservar o domínio global dos EUA. Além disso, um fato pouco conhecido desmente as razões mais profundas para a invasão: a fim de sustentar o declínio do status econômico dos EUA como a única superpotência, sua força militar foi necessária para obter o controle estratégico do suprimento de petróleo e da moeda do petróleo do Iraque por considerações macroeconômicas e geoestratégicas.

Mais especificamente, esta foi uma guerra para obter o controle sobre as reservas de hidrocarbonetos do Iraque e, ao fazê-lo, manter o dólar americano como moeda de monopólio para o crítico mercado internacional de petróleo. Tratava-se também de manter o dólar como moeda de reserva mundial, e também de garantir seu uso contínuo como mecanismo para expansão de crédito dos EUA.

A invasão também se tratou da instalação de inúmeras bases militares dos EUA no Iraque para ganhar domínio estratégico da região com as maiores reservas de combustíveis fósseis remanescentes do planeta. 

Uma das respostas para o enigma em torno da Guerra do Iraque foi a simples, mas chocante constatação de que era em parte uma guerra cambial travada pelos EUA contra o euro, moeda da União Europeia. 

O objetivo calculado de mudança de regime em Bagdá foi projetado para evitar um maior impulso dentro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) em direção ao euro como uma moeda alternativa de transação de petróleo. A fim de antecipar a OPEP, o governo dos EUA precisava ganhar o controle do Iraque junto com suas reservas de petróleo. 

Uma das verdadeiras razões para derrubar Saddam Hussein foi o desejo do governo Bush de instalar um governo fantoche no Iraque e reverter imediatamente as exportações de petróleo do Iraque para um padrão dólar. Essa reconversão não foi o único problema em si, mas o intuito era impedir qualquer movimento em direção a um petroeuro.

Quando o euro foi lançado em 1999, o Irã expressou interesse em mudar para um petroeuro, mas o declínio subsequente do euro em 2000 reduziu temporariamente o impulso. Implacável, Saddam Hussein foi o primeiro membro da OPEP a fazer a mudança. 

Com a guerra, o governo enviou uma mensagem clara a outros produtores da OPEP: Ou você está conosco ou contra nós.

Qual seria o efeito se a maioria dos membros da OPEP fizesse uma mudança repentina (coletiva) para euros, em oposição a uma transição gradual? Embora fosse altamente improvável, isso criaria uma turbulência monumental nos mercados financeiros globais. De acordo com um ex-analista do governo dos EUA:

“O efeito de uma mudança da OPEP para o euro seria que as nações consumidoras de petróleo teriam que liberar dólares de seus fundos de reserva (banco central) e substituí-los por euros. O dólar cairia de 20 a 40% em valor e as consequências seriam aquelas que se poderia esperar de qualquer colapso da moeda e inflação maciça (como nas crises cambiais da Argentina). Você teria fundos estrangeiros saindo dos mercados de ações dos EUA e ativos denominados em dólares. Isso poderia resultar em uma grande crise econômica, certamente haveria uma corrida aos bancos como na década de 1930.”

E qual foi o resultado final da Guerra do Iraque? 

Aproximadamente 150 bilhões de dólares em dinheiro do petróleo foram contrabandeados para fora do Iraque desde que Saddam Hussein foi deposto em 2003, segundo o presidente do Iraque, Barham Salih.

Além disso, houve instabilidade em todo oriente médio, surgimento de diversos grupos terroristas, conflitos pelo controle de diversas áreas do país, corrupção generalizada nos órgãos do novo governo, a ascensão do Irã como uma potência regional e centenas de milhares de inocentes mortos. No fim, o principal perdedor não foi o ditador Saddam Hussein, mas sim o povo iraquiano que pagou com sangue os interesses de uma potência e o lucro de algumas poucas empresas.