EUA e China vêm protagonizando provavelmente a maior disputa econômica da humanidade, de um lado a democracia, do outro o autoritarismo, de um lado o “livre mercado”, do outro o “socialismo de mercado”, porém ambos com o mesmo objetivo final,  aumentar sua influência na economia mundial.

Enquanto a China passava pelo chamado “Século das Humilhações”, os EUA cresciam sua influência econômica e militar no mundo. Após as duas guerras mundiais, esteve no caminho americano à União Soviética, porém, nas suas últimas décadas ela não conseguiu competir de igual para igual, até que desmoronou.  

Com o fim da URSS, a China aprendeu importantes lições, e o seu maior sucesso foi o maior fracasso dos soviéticos: a economia. E hoje esse “capitalismo com características chinesas” como é chamado pelos próprios, ameaça a liderança americana sobre a economia mundial.

Quais são os principais campos de batalha dessa disputa, e quais as vantagens e desvantagens de ambos os lados?

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GUERRA COMERCIAL

Em 2018, uma guerra comercial foi iniciada pelo ex-presidente Donald Trump com várias batalhas envolvendo a China. 

Há décadas o país tem um déficit comercial com a China, e Trump acusou ela de estar literalmente “roubando” os EUA. 

Com intuito de diminuir esse déficit, o Representante de Comércio dos Estados Unidos iniciou uma investigação sobre a China a pedido de Trump. que concluiu em um relatório de março de 2018 que a China estava conduzindo práticas comerciais desleais, como transferências de tecnologia forçadas, suas práticas sobre propriedade intelectual e invasões cibernéticas de redes comerciais americanas.

No mesmo dia, o presidente Trump anunciou tarifas de até US$ 60 bilhões em importações. O governo logo publicou uma lista de cerca de US$ 50 bilhões em produtos chineses a serem sujeitos a uma nova tarifa de 25%. 

No terceiro estágio de tarifas, que foram os mais importantes, o governo Trump impôs 10% de tarifas sobre US $200 bilhões em mercadorias chinesas.

A China retaliou todas as tarifas, algumas chegando ao mesmo valor imposto pelos americanos e outras com valores menores.

Em janeiro de 2020, Trump e o vice-premier chinês Liu He assinaram o “Acordo Econômico e Comercial entre os Estados Unidos da América e a República Popular da China” abordando todas essas questões.

Como parte do acordo, a China concordou em comprar mais US$ 200 bilhões em bens e serviços americanos nos dois anos seguintes (o que não aconteceu), e algumas tarifas americanas foram derrubadas.

O governo chinês argumentou que o verdadeiro objetivo do governo dos EUA é sufocar o crescimento da China e que a guerra comercial teve um efeito negativo no mundo.

Segundo estimativas da Tax Foundation a manutenção das tarifas implementadas sob o governo Trump reduziram a produção econômica, a renda e o emprego. 

Estima-se que as tarifas reduziram o PIB em 0,23%, os salários em 0,15% e a perda de cerca de 176 mil empregos.

Alguns estudos relacionam as importações chinesas com a perda de empregos na indústria dos EUA. As estimativas chegam a 3,7 milhões de vagas encerradas em 17 anos, o que representa mais de 3% da força de trabalho americana.

A guerra comercial iniciada por Trump, não levou a lugar nenhum. Em dezembro de 2021, o déficit com a China bateu um recorde mensal histórico de 94,5 bilhões de dólares.

O governo do presidente Joe Biden manteve a maioria das tarifas do governo Trump em vigor.

No quesito guerra comercial e política industrial claramente a China está a frente dos EUA. 

GUERRA FINANCEIRA

A guerra financeira é outra parte muito importante, a China tem uma balança comercial muito positiva, ela exporta muito mais do importa, em 2021 por exemplo, ela teve  676 bilhões de dólares em superávit. 

E onde o governo Chinês coloca esse dinheiro? Justamente em seu maior rival, a maior parte indo para títulos do tesouro americano que são considerados o investimento “mais seguro do mundo”. 

Já no total a China tem mais de 3,2 trilhões de dólares em reservas, ao longo do tempo essas compras de dólar elevaram o valor da moeda diminuindo a competitividade da indústria americana e dificultando cada vez mais a essas indústria exportarem.

Para manter seus preços de exportação baixos, a China manteve sua moeda – o Yuan em baixa em comparação com o dólar americano.

Os americanos bem que gostariam de refazer as batalhas de 15 anos atrás, quando a China usava baixos salários e manipulação da moeda para impulsionar as exportações. Porém, esses dias já se foram. Os salários da China são relativamente altos em comparação com os de vizinhos como o Vietnã. E o Banco Popular da China gasta mais tempo hoje em dia sustentando o yuan do que reduzindo-o.

O outro lado dessa “batalha” financeira, estão as bolsas de valores nos EUA.

Mais de uma década atrás, centenas de empresas chinesas abriram capital nos EUA, fundindo-se em empresas públicas americanas.

Os reguladores dos EUA há muito tempo buscam mais transparência das empresas chinesas com ações negociadas nas bolsas dos EUA, mas Pequim resiste.

Em 2020, o senador republicano Marco Rubio, apresentou um projeto de lei que excluiria as empresas estrangeiras que não cumprem os regulamentos de contabilidade e supervisão dos EUA. 

A Casa Branca também pressionou por uma mudança. Em 4 de junho de 2020, a Casa Branca emitiu um “Memorando sobre como proteger os investidores dos Estados Unidos de riscos significativos de empresas chinesas”. “Durante décadas, as empresas chinesas aproveitaram os benefícios dos mercados financeiros dos Estados Unidos, e o capital levantado nos Estados Unidos ajudou a alimentar o rápido crescimento econômico da China.”, diz o memorando. “As ações da China para frustrar nossas leis de transparência levantam riscos significativos para os investidores.”

A China continua resistindo a pressão americana para que suas empresas sejam auditadas, em dezembro de 2021 a gigante Didi “O Uber da China” foi deslistada da Bolsa de Nova York, é possível que em breve empresas como a Alibaba e a Baidu também sejam removidas.

Quando olhamos para a economia mundial como um todo, o dólar ainda é hegemônico. A economia dos EUA ainda é a maior; O capital dos EUA é o mais lucrativo; a elite dos EUA é a mais próspera. O dólar americano ainda é a reserva financeira mundial, e o Yuan chinês ainda está muito distante de ameaçar o dólar nesse quesito. 

As realidades geopolíticas e as dependências econômicas muitas vezes levam a situações interessantes na arena global. A compra contínua de dívida dos EUA pela China é um desses cenários interessantes. Continua a levantar preocupações sobre os EUA se tornarem uma nação devedora líquida, suscetível às demandas de uma nação credora. A realidade, no entanto, não é tão sombria quanto parece, pois esse tipo de arranjo econômico é, na verdade, vantajoso para ambas as nações.

No quesito guerra financeira os americanos ainda estão muito à frente dos chineses.

GUERRA TECNOLÓGICA

A terceira guerra é na área tecnológica, parte da disputa ainda está em um estágio inicial, envolvendo campos emergentes como computação quântica, inteligência artificial e 5G. Os Estados Unidos ainda têm vantagem em setores cruciais, como software e semicondutores. 

Mas em setores como smartphones, drones e veículos elétricos, as empresas chinesas estão ganhando terreno – ou já estão muito à frente. No setor de smartphones, por exemplo, quais marcas pensamos ser as que mais venderam em 2021 em todo o mundo? Samsung e Apple, certo? Porém, 58% de todas as vendas de smartphones vieram de empresas chinesas como Xiaomi e Huawei.

A China deve sua ascensão a uma variedade de fatores: uma força de trabalho qualificada e de baixo custo, enormes subsídios governamentais, e ao contrário de muitos investidores dos EUA, uma disposição de financiar empresas de hardware que geram lucros menores do que as de software.

Os Estados Unidos ainda dominam as vendas globais de semicondutores, os chips de computador que alimentam a maioria dos eletrônicos modernos, de aviões e smartphones a carros e aspiradores de pó. 

Em 2020, as empresas com sede nos EUA responderam por quase metade dos quase US$ 500 bilhões em vendas globais de chips, de acordo com a IC Insights. No entanto, muitas empresas americanas que vendem chips não os fabricam. 

Eles projetam os semicondutores – grande parte do valor está no design inovador – e terceirizam a produção para grandes fabricantes, como a TSMC de Taiwan. 

Cerca de 13 por cento da capacidade de fabricação de semicondutores está nos Estados Unidos, contra 16 por cento na China, 20 por cento em Taiwan, 19 por cento na Coreia do Sul e 17 por cento no Japão, de acordo com um estudo encomendado pela Semiconductor Industry Association.

Já no contexto geral, segundo o banco Credit Suisse:

“A China continua sendo a segunda maior fonte de unicórnios do mundo (startups com mais de 1 bilhão de dólares em capitalização), graças ao grande mercado consumidor em rápido crescimento e seu compromisso inabalável com os avanços tecnológicos.”

Alarmados com a crescente competição, o governo Biden e muitos membros do Congresso pediram mais apoio do governo para pesquisa e fabricação nacionais. Até mesmo alguns republicanos suavizaram suas convicções de livre mercado para adotar mais intervenção do governo para reforçar setores estratégicos como semicondutores.

Em 2021 o Senado Americano aprovou a maior lei de política industrial da História dos EUA para se contrapor à China.

Ainda no governo Trump, os EUA lançaram uma campanha total contra a Huawei, a principal empresa de tecnologia da China; e ambos os lados anunciaram sanções contra políticos de alto escalão.

A diretora financeira da Huawei, Meng Wanzhou, ficou quase três anos em prisão domiciliar no Canadá, acusada de fraude financeira.

Além disso, a China é conhecida pelo seu desrespeito à propriedade intelectual e a patentes, e também é acusada pelos EUA de espionagem tanto civil quanto industrial, suspeita-se que até a brasileira Embraer tenha sido vítima da espionagem chinesa quanto teve uma fábrica local em parceira com uma empresa chinesa (Harbin).

Na área de tecnologia, uma parte fundamental é educação, as universidades chinesas superaram as instituições dos EUA na produção de doutorados em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e com base nas tendências atuais, parece que isso só aumentará nos próximos anos.

Essa disputa acirrada por novas tecnologias e mercados está empatada no momento, com os americanos levando vantagens em algumas áreas e os chineses à frente em outras.

LADO AMERICANO

Os EUA são os que mais têm a perder nessa disputa, após o fim da URSS, os EUA reinaram soberanos econômica e militarmente sobre o mundo.

Segundo o cientista político e economista americano Francis Fukuyama, o mundo está voltando a um estado mais normal de multipolaridade, com China, Rússia, Índia, a Europa e outros países ganhando poder em relação à América. 

“O país continuará sendo uma grande potência por muitos anos, mas quão influente será depende de sua capacidade de resolver seus problemas internos, e não de sua política externa.”

LADO CHINÊS

Já na perspectiva chinesa, eles levam vantagem sobre os EUA e as democracias em geral pois podem pensar à muito longo prazo, enquanto as democracias estão preocupadas com eleições de 4 a 4 anos e suas medidas populistas para não perderam apoio popular, o Partido Comunista Chinês está no seu 14º plano econômico de cinco anos.

Além disso, por ser uma ditadura não existem brigas políticas que possam atrasar o planejamento e execução desses planos.  

Por outro lado, muitos questionam se o crescimento da economia chinesa não é impulsionado artificialmente pelo governo, e também há dúvidas quanto aos dados divulgados pelo governo, que em muitos casos são censurados e manipulados. O que não acontece nos EUA, onde a transparência quanto aos dados econômicos são muito maiores. 

Alguns problemas graves que a China enfrenta são sua dependência em importações tanto de alimentos como de petróleo, gás e carvão.  

LADO BRASILEIRO

E o que o Brasil ganha com essa disputa? Um mundo Multipolar é muito mais vantajoso para o país, os EUA em hipótese alguma gostariam de ter uma superpotência no quintal de casa, agora com países como a China aumentando sua influência por aqui, seria muito pior para os EUA ficarem distantes do Brasil, o que pode abrir o caminho para barganhas e contrapartidas para o nosso país, assim como a Austrália conseguiu com os submarinos nucleares, as oportunidades vão aparecer novamente.

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A disputa econômica entre EUA e China talvez não tenha precedentes na história.