O que você associa quando ouve o nome dessas marcas famosas? Samsung, LG, Huyndai, KIA. Provavelmente você deve associá-las à Coreia do Sul, o país de onde saí a tecnologia dessas marcas que fazem parte da nossa vida hoje em dia. 

De lá vem celulares, computadores, carros, foguetes, satélites e outros produtos de alta tecnologia.

Mas essa realidade era totalmente diferente 60 anos atrás, quando esse país dependia de ajuda externa apenas produzia produtos básicos como perucas e guarda-chuvas.

Como foi possível evoluir tanto nesse curto espaço de tempo? Para isso precisamos entender qual era a situação econômica da Coreia.

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Coreia pré-1961

Com o fim da segunda guerra mundial e a vitória dos aliados na Europa e no Pacífico, chegou ao fim a ocupação japonesa na Península Coreana, após mais de 35 anos de controle ferrenho sobre a população.

Com esse vácuo de poder deixado pelo Japão, a Coreia acabou sendo dividida em 1945 pela União Soviética e pelos Estados Unidos, que então criaram dois estados: a República Popular Democrática da Coreia no norte e a República da Coreia no sul.

A Coreia do Norte herdou a maior parte das indústrias, a maior parte da mineração e mais de 80% da geração de energia elétrica. Já a Coreia do Sul possuía a maioria das áreas agrícolas, mesmo assim não era nem suficiente para alimentar a sua população.

Claramente, a Coreia do Sul saiu em desvantagem na partilha da Coreia.

Em 1948 saiu do poder o Governo Militar dos Estados Unidos e começou a Primeira República, sendo criada através de uma Assembleia Constituinte. A Assembleia elegeu Syngman Rhee como o primeiro presidente.

O governo de Rhee enfrentou enormes problemas: como a saída da grande população de japoneses no país após a libertação, o que resultou na perda de muitos trabalhadores qualificados, como técnicos e professores; um enorme fluxo de refugiados vindos da Coreia do Norte; a perda do Japão como seu principal mercado para suas exportações agrícolas; e tudo isso combinado com uma situação política caótica.

Esses problemas foram agravados pela destrutiva Guerra da Coréia, de 1950-1953, que teve aproximadamente 5 milhões de fatalidades, entre militares e civis.

Os anos após a guerra, de 1953 a 1961, tiveram apenas uma recuperação lenta, apesar de o país ser um dos maiores recebedores de ajuda externa do mundo.

Havia uma falta de planejamento central e apenas um modesto investimento em infraestrutura. A má alocação da ajuda externa, corrupção generalizada, um câmbio fora da realidade (Com a sobrevalorização da moeda coreana), a volatilidade política e a ameaça de uma guerra renovada com a Coreia do Norte tornaram o país desagradável para os investidores nacionais e estrangeiros.

Além disso, o trauma da ocupação japonesa criou um medo de recriar a dependência colonial da Coreia com o Japão, o que impediu de abrir o país ao comércio e aos investimentos com seu vizinho que crescia aceleradamente.

Com poucos recursos naturais, o país produzia pouco que o resto do mundo queria e seu comércio internacional era minúsculo.

A moeda sobrevalorizada fez os produtos coreanos não serem competitivos para exportações. As exportações da Coreia do Sul neste período consistiam principalmente de pequenas quantidades de tungstênio (que é usado em filamentos de lâmpadas), arroz, algas marinhas, ferro e grafite.

Nessa época quase 80% das receitas do governo eram de ajuda externa dos Estados Unidos.

Mesmo com todos esses problemas, duas mudanças fundamentais ocorreram na sociedade sul-coreana antes de 1961, que contribuíram para o crescimento econômico do país. A primeira foi a rápida expansão da educação. De 1945 a 1960, as matrículas nas escolas primárias aumentaram três vezes o seu tamanho, no ensino secundário mais de oito vezes e no ensino superior dez vezes. 

Em 1960, 96% de todas as crianças na faixa do ensino primário frequentavam a escola. Além disso, grupos estatais e privados realizaram programas de alfabetização de adultos com enorme sucesso. Como resultado, a Coréia do Sul, em 1961, tinha a força de trabalho mais qualificada de todos os países com um nível de renda comparável.

A outra grande mudança foi a reforma agrária, foram confiscadas e distribuídas todas as terras que estavam em mãos do governo colonial japonês, de empresas e colonos japoneses. 

Em 1944, 3% dos proprietários de terras possuíam 64% delas, em 1956 esse número caiu para apenas 18%.

A reforma agrária trouxe estabilidade ao campo e redirecionou muito do capital e da energia empreendedora de proprietários de terras para o comércio, a indústria e a educação.

Em abril de 1960 ocorreu a Revolução de Abril, que começou com protestos estudantis contra o governo de Syngman Rhee, a população estava insatisfeita com o autoritarismo do governo, corrupção e o baixo desenvolvimento econômico do país. 

Neste mesmo mês Rhee renunciaria o seu cargo, e um ano depois apareceria um dos mais importantes personagens na história recente da Coreia do Sul.

Golpe de Estado de 1961

Com a queda do presidente Rhee, veio a Segunda República Coreana, liderada pelo primeiro-ministro Chang Myôn (Jang Myeon), entretanto ela não duraria muito tempo.

Em 1961, tornou-se cada vez mais evidente para muitos que os líderes da Segunda República, eram incompetentes e corruptos. O governo fragilizado de Chang Myôn (Jang Myeon) traiu as esperanças de quem esperava por um governo limpo e eficaz.

Muitos pensaram que o governo civil não poderia lidar com as crises políticas, sociais e econômicas que então assolavam o país. Alguns temiam que o caos nacional convidasse à subversão comunista.

A sociedade sul-coreana esperava por uma liderança eficaz, e ela apareceu na figura do General de brigada Park Chung-Hee. 

No dia 16 de maio de 1961, Park rumou ao Quartel General do Sexto Exército para organizar e executar o golpe. 

Park fez o seguinte discurso para os militares que estavam lá 

“Temos esperado que o governo civil devolva a ordem ao país. O primeiro-ministro e os ministros, no entanto, estão atolados em corrupção, levando o país à beira do colapso. Devemos nos levantar contra o governo para salvar o país. Podemos cumprir nossos objetivos sem derramamento de sangue. Vamos nos juntar a este Exército Revolucionário para salvar o país.”

Seu discurso fez tanto sucesso, que até as unidades da Polícia do Exército que estavam lá para detê-lo, acabaram se juntando a ele.

Logo após isso, as forças especiais tomaram a residência presidencial da Coreia, a Casa Azul. O governo civil implodiu rapidamente, e mais de 20 divisões do exército davam suporte ao golpe, após obter apoio do Chefe do Estado-Maior do Exército, o Golpe de Park terminou com sucesso.

Foi estabelecida a Lei Marcial, o congresso foi dissolvido, e o controle do governo foi posto nas mãos da nova Junta Militar. 

Park e seus colegas oficiais exploraram o vácuo de poder criado pela Revolução de Abril de 60 com análises de inteligência primorosas, capacidade organizacional e habilidade política.

Governo Park Chung-Hee

Imediatamente após o golpe, a junta militar lançou um plano de desenvolvimento econômico de longo prazo, o primeiro desse tipo na história do país.

A política de desenvolvimento liderada pelo Estado foi projetada não apenas para legitimar o governo político de Park, mas também para ajudar os líderes do golpe, incluindo Park, a obter o reconhecimento dos Estados Unidos como reconstrutores da nação.

Um dos principais sentimentos dos militares era: poder acabar com a pobreza no país.

Isso era uma questão de orgulho nacional e também um desejo de libertar a nação da sua dependência econômica dos Estados Unidos.

Além do desejo de libertar seu país da dependência dos EUA, os novos líderes militares foram motivados pela competição com a Coreia do Norte que estava se industrializando rapidamente.

Diversos passos foram dados para direcionar o estado para o crescimento econômico: o desenvolvimento de planos econômicos de cinco anos, o redirecionamento da economia de importações para o desenvolvimento industrial orientado para a exportação e o controle do estado sobre o crédito. 

O estado nacionalizou todos os bancos comerciais e reorganizou o sistema bancário para dar controle sobre o crédito. Em seguida, concedeu empréstimos a juros baixos para empresas.

Inicialmente, os líderes militares se voltaram contra os empresários e suas relações corruptas com o governo. 

Mas depois de deter e multar cinquenta e um líderes empresariais, incluindo Lee Byung Chull (Yi Pyŏng-ch’ŏl), fundador da Samsung e o homem mais rico do país na época, eles começaram a trabalhar em estreita colaboração com eles para aproveitar suas habilidades empresariais para o esforço nacional de desenvolvimento econômico.

Park nomeou treze membros do Comitê Promocional de Reconstrução Econômica, com Lee como presidente. Desta forma, o governo militar iniciou sua parceria com a elite empresarial do país, e essas empresas seriam uma peça-chave no crescimento Coreano.

Milagre do Rio Han

A equipe econômica desenvolveu planos de desenvolvimentos de cinco anos, ou planos quinquenais, dando início ao chamado Milagre do Rio Han, quando a economia da Coreia do Sul começou a crescer rapidamente.

Como o país não tinha recursos naturais disponíveis, eles não teriam a facilidade de apenas vender matérias-primas para outros países, eles teriam que transformar essa matéria-prima importada em bens de consumo e depois exportá-las.

O primeiro plano visava construir a base industrial do país, os focos eram na infraestrutura, em aumentar a produtividade da agricultura, promover avanços na área tecnológica e encorajar o desenvolvimento de indústrias leves, como construção civil e a indústria têxtil, para que elas pudessem exportar os produtos e trazer dólares para a Coreia, equilibrando a balança comercial, que era negativa.

Ele foi lançado em 1962 e projetava uma taxa de crescimento econômico de 7,1% para 1962-1966. 

Apesar do ceticismo de muitos conselheiros americanos de que a taxa não era realista, a meta foi superada com a taxa de crescimento econômico em média de 8,9%, impulsionando a Coreia do Sul em seu caminho para a rápida industrialização.

Em 1965, a Coreia do Sul normalizou as relações com o Japão, elas ainda eram abaladas pela ocupação japonesa da península coreana de 1910 até 1945.

Com essa melhoria, os coreanos conseguiram 800 milhões de dólares em concessões e empréstimos, acesso a tecnologias e também expertise industrial do Japão. Essa parceria foi necessária para que o governo pudesse avançar na sua política industrial, pois a Coreia do Sul na época não tinha acesso a empréstimos além da ajuda monetária que recebia dos EUA.

O segundo plano quinquenal começou em 1967, ele já visava a transição para indústrias mais pesadas como a petroquímica e a siderurgia.

Apesar de não haver indústria siderúrgica na Coréia, o presidente Park queria ser capaz de fabricar aço internamente sem depender de importações e tecnologia estrangeira.

Com ordens do Presidente, em 1968 foi criada a empresa pública POSCO, a Companhia de Aço e Ferro Pohang. Hoje em dia ela é a sexta maior produtora de aço em todo o mundo.

A POSCO iniciou a produção em 1973. Ela montou as instalações necessárias para a construção da sua fábrica, e recebeu apoio governamental generoso, incluindo financiamentos e incentivos fiscais. 

E aí ficou evidente a importância fundamental da empresa na economia do país, pouco antes dela iniciar a produção o governo avançou para o terceiro plano de cinco anos, que previa a construção de fábricas de bens manufaturados de alto valor agregado, como carros, navios, maquinário e eletrônicos e material para a indústria de defesa

Ao fornecer os materiais básicos às indústrias mais avançadas, a POSCO superou as expectativas do governo e cresceu rapidamente. 

As indústrias que a POSCO forneceu material viriam a ser muito famosas e conhecidas em todo o mundo.

Chaebols

Na Coreia do Sul, os conglomerados empresariais são conhecidos como Chaebols, esses conglomerados são controlados por famílias que dominam a economia da Coreia do Sul.

Embora as famílias fundadoras não possuam necessariamente participações majoritárias nas empresas, os descendentes dos fundadores costumam manter o controle em virtude de uma longa associação com as empresas. 

No governo de Park Chung-Hee, eles decidiram quais indústrias e conglomerados iriam beneficiar com financiamentos e incentivos fiscais também quem iria controlar as empresas. A política dos chaebols é comumente associada a política de campeões nacionais. 

Entre os maiores chaebols estão a Samsung, a LG, a Hyundai e a SK Group. No início do século 21, os chaebols produziram cerca de dois terços das exportações da Coreia do Sul e atraíam a maior parte dos fluxos de capital estrangeiro do país.

Porém, essas empresas não receberam benefícios sem nenhuma contraproposta. As empresas que não apresentaram resultados e desenvolvessem novas tecnologias perderam seus benefícios como subsídios e créditos públicos.

Esses grandes conglomerados conseguiram atingir a economia de escala e competir globalmente. Como vários deles tinham monopólios dentro do país, isso os permitiu focar no exterior e tomar riscos em setores que estavam fora de seus negócios principais.

Eles fizeram isso alocando recursos para suas subsidiárias quando eles encontravam novas oportunidades de negócio.

Essas empresas também se beneficiaram do seu aliado mais importante, os Estados Unidos.

A Coreia do Sul participou da Guerra do Vietnã e em troca os EUA abriram seu mercado para os produtos coreanos, a Coreia foi capaz de exportar bens para os Estados Unidos fazendo o seu PIB crescer exponencialmente e ser cada vez menos dependente do auxílio monetário americano.

Centros de Pesquisa

Dentro da política econômica do governo de Park, o desenvolvimento de tecnologia era essencial. O governo queria desenvolver uma força de trabalho e acumular conhecimento que permitiria à nação desenvolver tecnologias avançadas, e eventualmente evitar a dependência de tecnologia de outros países. 

Para isso foram criados diversos centros de pesquisa e desenvolvimento. Um dos primeiros passos em direção a esse objetivo foi a construção de um complexo de pesquisas em Daedeok, hoje sendo chamada de Daedeok Innopolis.

Existem diversos institutos, agências e empresas públicas na região. Como o KAIST (Instituto de Ciência e Tecnologia da Coreia), o Instituto Aeroespacial, o Instituto de Energia Atômica, a Agência para desenvolvimento da Defesa e outras dezenas de órgãos de pesquisa. A maioria dos pesquisadores, cientistas e engenheiros dos grandes conglomerados coreanos, vem dessas instituições.

Coreia pós-Park

No ano de 1979, o presidente Park Chung-Hee foi assassinado, especialmente depois da morte dele, os conglomerados começaram a se rebelar contra o estado e começaram assim os primeiros movimentos pela desregulamentação econômica, e para reduzir a intervenção estatal e realizar mais privatizações. Isso coincidiu com a democratização da Coreia do Sul no final dos anos 80.

Hoje em dia, os chaebols juntamente com os bancos e outras instituições foram totalmente reestruturados, e tornaram-se mais enxutos na sua estrutura, conservadores nas finanças e mais cautelosos na gestão de risco.

E quatro décadas após a morte do presidente Park, muitas coisas mudaram, principalmente no ponto de vista do povo sul-coreano.

O medo do comunismo e da Coreia do Norte que sustentava o regime autoritário na Coreia do Sul acabou. 

Os Estados Unidos, que foram tão poderosos e essenciais para a segurança da Coréia do Sul, perderam parte de seu poder e brilho na região, permitindo com que o país se tornasse mais independente em sua política externa e fortalecesse seus laços com a China e outros países e organizações internacionais. 

A crise financeira de 1997–1998 forçou a Coreia a se tornar mais dependente do sistema econômico internacional, enfraquecendo assim seu poder de permanecer um estado desenvolvimentista, embora não tenha abandonado totalmente essas práticas. 

Embora a política de nacional desenvolvimentismo tenha auxiliado a criação das indústrias e levado a Coreia aos níveis de riqueza de hoje, elas deixaram o país extremamente dependente dos conglomerados que representam cerca de 44% do PIB.

Os principais problemas econômicos de hoje no país são que os pequenos negócios não conseguem competir com os gigantes conglomerados, isso gerou uma onda de desemprego entre os mais jovens, que não conseguem achar trabalho fora dessas empresas.

Porém, mesmo com os problemas atuais, o caso da Coreia do Sul não deixa de ser espetacular. Ela conseguiu com o apoio estatal que suas empresas criassem produtos cada vez mais complexos e inovadores, e que fossem conquistando aos poucos os mercados globais e enriquecendo seu país ao mesmo tempo.

E você, o que você achou do legado de General Park Chung-Hee para a Coreia do Sul? Será que essas políticas também poderiam ser implementadas no Brasil?