Porque será que um bloco tão rico quanto a União Européia está passando por uma de suas piores crises energéticas em décadas? Poderíamos resumir essa crise a alguns fatores: como o fim do lockdown na Europa e um inverno prolongado.

 Porém existem diversos outros fatores que levaram a essa crise, o principal deles: A política energética europeia.

Imagine um jogo de cabo de guerra, com uma pessoa puxando a corda para um lado e outra puxando para o outro, essa é a UE na questão de energia hoje em dia, vários países-membros têm interesses conflitantes. A França por exemplo é a favor de usinas nucleares, já a Alemanha é totalmente contrária, e isso também se estende para as áreas de gás natural e geração de energia. 

Após o acidente nuclear de 2011 em Fukushima, no Japão, a Alemanha por exemplo acelerou seu programa para desativação de todas as suas usinas nucleares até o ano de 2022. Segundo matéria da Deutsche Welle, apenas em 2011 foram fechadas 7 usinas nucleares.

Com a queda no uso da energia nuclear e com usinas de carvão também sendo fechadas, foi inevitável o aumento no uso de gás natural, porém ele não foi suficiente para atender a demanda energética da UE. Para se ter uma ideia, o preço do gás natural na Europa chegou a subir mais de 600% em 2021. O sonho europeu de acabar com a dependência de combustíveis fósseis os deixaria ainda mais vulneráveis a eles.   

ASSISTA O VÍDEO EM NOSSO CANAL

Política energética Europeia

TRATADO DE ROMA EUROPARL

TRATADO DE ROMA

A energia sempre desempenhou um papel importante na história da União Europeia, antes mesmo dela existir “oficialmente” 

O carvão foi o primeiro combustível a ser explorado; assinado em 1951, o Tratado de Paris instituiu a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Assinaram o tratado (Bélgica, Alemanha, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos) o objetivo era organizar a livre circulação do carvão e do aço e facilitar o acesso a essas matérias-primas. A Comunidade queria acabar com tarifas alfandegárias, abolir subsídios, e nivelar preços entre os países.

Já em 1957, foi assinado o Tratado de Roma, que criou a Comunidade Econômica Européia, a predecessora da atual UE.

Juntamente com o Tratado de Roma, foi assinado o Tratado Euratom, criando a Comunidade de Energia Atômica Europeia, com objetivo de promover pesquisas e divulgação de informações técnicas e estabelecer padrões de segurança para proteger os trabalhadores da indústria.

As questões de suprimento de energia dominaram os primeiros anos da integração europeia. No entanto, regidos por políticas protecionistas, os mercados nacionais de energia permaneceram amplamente isolados uns dos outros. 

Em 1973 a Europa, assim como todo o mundo, passaram pela crise do petróleo, que ocorreu em protesto pelo apoio dos Estados Unidos a Israel durante a Guerra do Yom Kippur. 

Os membros árabes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEC em inglês) impuseram um embargo aos Estados Unidos em retaliação ao abastecimento de equipamentos aos militares israelenses. O preço do barril de petróleo chegou a subir mais de 400%

Com essa crise, os líderes europeus passaram a coordenar melhor o combate conjunto à escassez de energia, e buscaram novos parceiros para o setor de Óleo e Gás, para que pudessem diminuir a dependência do Oriente Médio. Mas seria apenas o Ato Único Europeu de 1987, que começaria a remover as barreiras comerciais e protecionismo entre os países europeus. 

O Ato Único foi o primeiro passo para a criação do Euro em 1992 e do mercado único europeu em 1993, que tinha quatro liberdades fundamentais: a livre circulação de mercadorias, de serviços, de pessoas e de capital.

Mais recentemente, em 2015, o Conselho Europeu criou a União da Energia.

EU'S CLAIM ENERGY UNION NOW 'A REALITY' NOT BASED ON FACTS

A União da Energia tem três objetivos de longo prazo na política energética da UE: garantir que a Europa tenha energia segura, acessível e sustentável.

Esses objetivos são sustentados por 5 pilares: 

1) segurança energética; 2) integração do mercado interno de energia; 3) eficiência energética; 4) descarbonização da economia; e 5) pesquisa, inovação e competitividade.

A União da Energia é a espinha dorsal da política da União Europeia em matéria de energia e clima, sendo uma das dez prioridades da atual Comissão Europeia.

Desde as origens da União Europeia, o setor de energia sempre teve um papel fundamental na integração e cooperação dos países europeus.

E nos últimos anos, o foco principal da União Europeia é o combate ao aquecimento global, diversos acordos foram assinados nesse sentido, sendo os principais o Acordo de Paris e o Acordo Verde ou o Pacto Ecológico Europeu.

Ambos os acordos visam levar as emissões de carbono a 0% até 2050. E para isso seria necessário a transição de combustíveis fósseis (como petróleo, carvão e gás natural) para energias renováveis (como eólica, solar e hidrelétrica). Porém a UE foi com muita sede ao pote, e na pressa de abandonar os combustíveis fósseis acabou deixando alguns vácuos no fornecimento de energia europeu.

O plano na teoria era perfeito, mas na prática acabou virando um desastre, e junto de outros fatores levaram a crise energética deste ano: incluindo o aumento da demanda em energia à medida que os países europeus abriram suas economias após o lockdown, um inverno prolongado que esgotou as reservas de gás e a demanda por gás na Ásia que literalmente explodiu . 

E é aí que entra uma peça fundamental nesse quebra-cabeças, a Rússia. Ela é responsável por mais de 40% das importações de gás natural na UE, e com mais gás indo para a Ásia, acabou faltando para a Europa. Agora, como a UE ficou tão dependente da Rússia nessa questão?

Como a Rússia dominou a Europa?

Como e por que a Europa Ocidental se tornou um grande importador de gás natural russo? É claro que essa dependência de hoje não surgiu da noite para o dia. O período em que se iniciou o comércio de gás entre a Europa Ocidental e a Cortina de Ferro, liderada pela União Soviética, foi entre os anos de 1965 a 75 – ou seja, no meio da Guerra Fria.

Na década de 1960, grandes volumes de gás natural foram descobertos na União Soviética, mas o crescimento do sistema doméstico de gás soviético foi atrasado pela incapacidade da indústria siderúrgica de produzir tubulações de aço de alta qualidade e também pela falta de recursos financeiros. Já na Europa Ocidental, por sua vez, eles sabiam como construir essas tubulações e tinham dinheiro para fazê-las, mas não tinham as reservas de gás necessárias.

Essa combinação parecia perfeita, mas ambos os lados teriam que confiar em seus inimigos e cumprir suas obrigações nos futuros contratos.

As negociações entre a União Soviética e a Itália, Áustria, Alemanha Ocidental, Finlândia e Suécia foram intensas e ganharam impulso em 1966-1967, e uma série de acordos pioneiros foram alcançados no período de 1968 a 1970. 

As primeiras entregas começaram para a Áustria já em 1968 e para a Alemanha Ocidental, Itália e Finlândia em 1973–1974. A França fez o mesmo em 1976.

Surpreendentemente, vários países e regiões da Europa Ocidental foram conectados ao sistema comunista de gasodutos da Europa Oriental antes de se conectarem com as redes de outros países membros da Comunidade Europeia e da OTAN.

O gás natural soviético havia se tornado uma das fontes de combustível mais importantes da Europa Ocidental. O gás soviético foi utilizado em larga escala por uma ampla gama de empresas industriais, por usinas de energia, pelo setor municipal e por milhões de famílias.

Isso foi possível através da construção de uma das infraestruturas mais críticas e caras da Europa, sendo um dos casos mais notáveis das relações diplomáticas entre a União Soviética e a Comunidade Europeia e que foi rotulado de “integração oculta” da Europa na era da Guerra Fria. Em nenhuma outra área, a Europa Ocidental e a Cortina de Ferro desenvolveram relações tão íntimas quanto no setor de gás natural.

O comércio de gás foi crescendo gradualmente junto com a confiança entre ambas as partes e com isso permitiram a construção de gasodutos cada vez maiores, gerando dependências e vulnerabilidades para ambos os lados, o que contrariava a lógica da Guerra Fria.

E ao longo do desenvolvimento dessa relação comercial de quase meio século, houveram tentativas de sabotagem lideradas principalmente pelos EUA na era Ronald Reagan contra o aumento do comércio de gás no início dos anos 1980.

As exportações de gás soviético tornaram-se sujeitas a grandes debates públicos e políticos, e demandas por mudanças radicais – e até mesmo o abandono dessa relação. Entretanto naquela época, essa relação havia se tornado tão poderosa que essas demandas tinham poucas chances de se materializar. 

Essa relação comercial foi posta à prova de 1989 a 1991, quando o Muro de Berlim caiu, a União Soviética entrou em colapso e o mapa político da Europa foi radicalmente redesenhado, mas mesmo com esse apocalipse político o suprimento de gás para a Europa Ocidental não parou, 

Durante o período soviético, o envio de gás nunca foi interrompido por motivos políticos, apenas por problemas técnicos ou manutenções, porém isso seria diferente no futuro.

Gazprom

GAZPROM OFERECERÁ TECNOLOGIA AO BRASIL - RUSSIA BEYOND BR

Em 1989, o Ministério Soviético da Indústria de Gás (Mingazprom) foi sucedido por diversas empresas estatais, com cada República Soviética ficando com a sua fatia. A principal empresa que sucedeu o Ministério foi a Gazprom da Rússia.

Com o fim da União Soviética, diversas repúblicas estavam praticamente quebradas, e com isso não conseguiram fazer os pagamentos pelo envio de gás russo, diante dessa situação, a Gazprom cortou o fornecimento de gás para a Estônia e a Lituânia e também ameaçou cortar o fornecimento a Letônia e a Bielorrusia.   

A Rússia deixou claro aos seus clientes que o não pagamento em nenhuma circunstância seria aceito no comércio de gás pós-soviético.

A principal crise aconteceria entre a Ucrânia e a Rússia, assim como os países bálticos a Ucrânia acumulou enormes dívidas e teve o fornecimento de gás russo interrompido por diversas vezes, como a Ucrânia era por onde passava grande parte do gás que ia para a Europa, países como a Alemanha, Áustria, Itália e Suíça chegaram a ter cortes no fornecimento de 50 a 75% por diversas semanas.

Além das dívidas, a Ucrânia tinha discordâncias entre o preço do metro cúbico do gás cobrado pela Gazprom e também achava que tinha o direito de utilizar uma parte do gás que iria para a Europa Ocidental como uso doméstico.

A relação piorou ainda mais em 93 quando a Ucrânia decidiu abandonar a sua união monetária com a Rússia, abandonando o rublo como moeda.

Essa mudança não foi bem vista em Moscou. O governo ordenou à Gazprom que “cobrasse preços do mercado internacional pelo petróleo, gás e outros recursos naturais das ex-repúblicas soviéticas que não utilizassem mais o rublo.” Moscou não queria mais subsidiar as economias dos estados vizinhos vendendo-lhes gás a preços abaixo do mercado.

As relações entre a Ucrânia e a Rússia apenas se deterioraram entre o final dos anos 90 e os anos 2000, e no meio dessa briga estava a Gazprom.

Para se ter ideia do tamanho dela hoje, o valor de mercado da empresa corresponde a mais de 70% do PIB Ucraniano. Em 2020 ela teve um faturamento de 76 bilhões de euros, sendo a maior empresa da Rússia e maior empresa extratora de gás natural do mundo. Sendo liderada por essa gigante, a Rússia buscava criar alternativas para a rota de gás ucraniana.

Principais Gasodutos na Europa

EUROPA INVESTIGA VAZAMENTOS NOS GASODUTOS NORD STREAM – DW – 27/09/2022

A Gazprom possui o maior sistema de transmissão de gás do mundo, a maior parte do qual faz parte do Sistema Unificado de Abastecimento de Gás (UGSS) da Rússia. O UGSS abrange instalações de produção, processamento, transmissão, armazenamento e distribuição de gás na Rússia europeia e na Sibéria Ocidental.

Esses são os principais gasodutos que se ligam com a Rede Europeia de Transmissão de Gás Natural:

O sistema de gasoduto Northern Lights ou Aurora Boreal foi construído na União Soviética entre os anos 1960 e 1980. Primeiramente, o gás natural era fornecido pelos campos de gás de Vuktyl. Quando os campos de gás de Vuktyl foram esgotados, o gasoduto foi extendido para os campos de gás de Urengoy. O comprimento total do gasoduto é de aproximadamente 6.400 km e vai até a Bielorrusia. Ele tem capacidade de transportar 51 bilhões de metros cúbicos por ano.

O sistema de gasodutos Irmandade, engloba 4 gasodutos todos passando pela Ucrânia, o gasoduto Trans-Siberiano sai dos campos de gás de Urengoy, no noroeste da Sibéria, e segue para sudoeste, cruzando a parte europeia da Rússia até Uzhgorod, na Ucrânia. O gasoduto Soyuz que vai dos campos de gás de Orenburg, na Rússia, atravessa o Casaquistão, e vai até Uzhgorod. O gasoduto Progresso que sai dos campos de gás de Yamburg na Rússia e também chega em Uzhgorod. E o gasoduto Torzhok, que começa a 240 km de Moscou, passa pela Bielorrussia e termina em Dolyna na Ucrânia. 

No total eles têm aproximadamente 13.135 km de extensão e transportam 116 bilhões de metros cúbicos de gás anualmente.

Já o gasoduto Yamal-Europa, sai dos campos de gás da Península de Yamal, passa pela Bielorrusia, Polônia e chega à cidade Alemã de Frankfurt an Der Oder. Ele tem aproximadamente 4.100 km de extensão e transporta 33 bilhões de metros cúbicos de gás anualmente.

Já na Turquia, existem três gasodutos russos, o Bluestream e o TurkStream 1 e 2, que são interligados com o sistema Irmandade e atravessam o Mar Negro. No total eles têm aproximadamente 3.790 km e levam 47 bilhões de metros cúbicos de gás por ano.

Agora, um dos mais polêmicos gasodutos, são os dos projetos Nord Stream e Nord Stream 2. Junto com os gasodutos na Turquia, eles foram feitos visando diminuir a importância dos gasodutos que passam pela Ucrânia.

Os dois gasodutos foram feitos paralelamente no Mar Báltico, o primeiro saindo de Vyborg e o segundo saindo de Ust-Luga e ambos chegando na cidade de Greifswald na Alemanha. O Nord Stream foi inaugurado em 2011 e as obras do Nord Stream 2 foram finalizadas em setembro de 2021, mas ainda aguardam aprovação regulatória da União Europeia.

Esses dois gasodutos vão ter capacidade de transportar 110 bilhões de metros cúbicos de gás por ano, próximo ao que o sistema Ucraniano transporta.

Em 2018 a Gazprom já havia reduzido substancialmente os volumes de gás que passam pela Ucrânia e expressou sua intenção de reduzir ainda mais o volume que passa pelo país.

O Nord Stream 2 é oposto por países da Europa Oriental, como Polônia, Eslováquia e obviamente pela Ucrânia que temem perder o trânsito de gás russo por seus países e em consequência perder bilhões de euros em receita.

No geral, qual é a visão estratégica de Rússia, UE e EUA nesse assunto?

Lado Russo

A Rússia já possui mais de 40% do mercado europeu de gás, e visa aumentar seu poder de barganha com a Europa, caso a Rússia venha a ter quaisquer problemas eles simplesmente poderiam deixar a Europa morrer de frio cortando seu acesso ao gás natural, mas olhando por outro lado, a Rússia também depende das receitas dessas vendas.

Mas, mesmo a Rússia sendo dependente do dinheiro Europeu, nessa relação ela ainda está mais fortalecida do que a Europa.

O presidente russo Vladimir Putin atribuiu a crise deste ano a troca de contratos longos de gás natural, o que garantia a reserva de determinados volumes para a Europa e mantinham a estabilidade de preços. Agora a Europa faz as compras de gás à vista no mercado, ficando refém da disponibilidade dele no momento.

Lado Europeu

A UE foi a que saiu mais fragilizada. Ficou ainda mais dependente das importações Russas, e até no longo prazo, não há nenhum país que possa substituí-los.

Recentemente, até o Presidente da Bielorrússia, Aleksandr Lukashenko, ameaçou cortar o gás que vai para a UE.

Uma das alternativas para diminuir essa dependência é a energia nuclear, porém elas podem levar até décadas para ficarem prontas. O Presidente Francês Emmanuel Macron afirmou que seu país irá construir novas usinas nucleares, ele estimou em 6 o número de novos reatores a serem construídos. 

Lado Americano

Já os EUA são contra o Nord Stream argumentando que a UE ficaria ainda mais dependente do gás natural russo. Porém o principal interesse americano não é a dependência da UE, mas sim as suas vendas de gás natural à UE através de navios tanque. 

Em apenas 1 ano, de 2018 para 2019, o número de cargueiros de gás natural liquefeito americanos para a Europa saltaram de 37 para 184.

Em 2019, o ex-presidente Donald Trump, aprovou sanções contra empresas participantes no projeto. O que ocasionou fortes reações da UE, A Chanceler alemã Angela Merkel, ameaçou retaliar as sanções, além dela, França, Áustria e a Comissão Europeia criticaram os Estados Unidos por novas sanções ao gasoduto Russo. 

Mesmo com as sanções a construção prosseguiu, e vendo que isso seria inevitável, o presidente americano Joe Biden levantou as sanções impostas.