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COMO A FRANÇA AINDA DOMINA A ÁFRICA? 3

O Brasil se tornou independente de Portugal em 1822, agora imagine se mesmo sendo independente, o estado brasileiro fosse “obrigado” a “indenizar” Portugal pela construção de infraestrutura no país até os dias de hoje. Parece absurdo, não é mesmo? Mas esse é o caso de 12 países africanos que continuam pagando seu ex-colonizador até o presente momento.

O colonizador no caso foi a França, os franceses estavam relutantes em permitir que suas colônias tivessem total liberdade. Os governantes do país sentiram que suas colônias não deveriam se beneficiar da infraestrutura deixada por eles.

Quando a Guiné quis se tornar independente em 1958, os franceses destruíram tudo o que não puderam levar de volta, incluindo escolas, creches, hospitais, carros, livros, remédios, instrumentos de institutos de pesquisa, além disso tratores foram esmagados e sabotados, animais foram mortos e alimentos em armazéns foram queimados ou envenenados. O recado foi claro aos países que tentassem total independência da França.

Neste vídeo falaremos sobre a história de como a França ainda domina a África.

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FRANÇA COLONIAL

Com a partilha do continente africano, na segunda metade do século XIX, houve a consolidação do império colonial inglês, bem como a decadência dos impérios coloniais ibéricos (Portugal e Espanha) e o restabelecimento da França como uma potência imperial. Esse movimento teve início com a Conquista da Argélia, em 1830, e se consolidou em 1920.

As possessões coloniais francesas compunham-se principalmente de territórios da África Ocidental e Norte da África, atualmente os países: Marrocos, Tunísia, Guiné, Camarões, Togo, Senegal, Madagascar, Benin, Níger, Burkina Faso, Costa do Marfim, Chade, República do Congo, Gabão, Mali, Mauritânia, Argélia, Comores, Djibouti e República Centro Africana. 

A Guerra da Argélia (1958-1962) e o consequente movimento de descolonização, ocorridos nas décadas de 1960 e 1980, extinguiram o controle formal da França sobre suas colônias. Juntamente com a mudança do tabuleiro geopolítico causado pela Guerra Fria, a França termina por perder considerável capacidade de projeção internacional.

Como meio de manter o acesso francês às matérias-primas exportadas por suas ex-colônias, a França iniciou uma série de políticas de cooperação econômica e militar, que consolidou sua zona de influência internacional, a Françafrique (ou Françáfrica, em português). Ainda que implementadas sob o preceito de auxiliar os países africanos a se desenvolverem, as atividades do Estado francês culminaram na alienação das recentemente independentes ex-colônias, sobretudo da África Ocidental.

Essa mudança na gestão da relação entre a França e suas ex-colônias possui suas raízes nas derrotas militares que ela sofreu na Guerra de Independência da Argélia e na Primeira Guerra da Indochina (precursora da Guerra do Vietnã, que durou de 1946-1954). Ao invés de manter o controle explícito das ex-colônias e enfrentar uma série de conflitos militares pela independência, seria mais vantajoso ceder a independência política para os Estados africanos e manter uma série de elementos de controle à soberania recém cedida às ex-colônias.

Esses elementos são notadamente três. O primeiro é o controle das elites políticas das antigas colônias. O segundo elemento é a cooperação econômica. Já o terceiro elemento é o apoio e cooperação militar.

O controle das elites políticas ocorre pelo apoio político de Paris às lideranças políticas e tribais dos países africanos que possuam o desejo de governar as ex-colônias francesas. 

As relações entre os oficiais franceses e as famílias que compõem as elites nos países africanos ocorre de maneira informal. A corrupção é a regra, conforme denunciado pelo intelectual francês François Verschave no livro A Françáfrica: O escândalo mais longo da República, de 1999.

Economicamente, a Françafrique se caracteriza pela assinatura de acordos de cooperação entre a França e suas ex-colônias, normalmente em termos mais proveitosos a Paris do que às contrapartes africanas. Nessa esfera, o símbolo mais explícito dessa relação desigual é o Franco CFA, a moeda da época colonial e que ainda é utilizada por várias das ex-colônias francesas. 

Atualmente é dividida em Franco CFA Central e Franco CFA Ocidental. Ambas as moedas são pareadas com o Euro e os países africanos que utilizam este grupo de moedas devem manter uma parcela das suas reservas cambiais na França, a fim de dar lastro a moeda

Militarmente, a França provê treinamento de oficiais das forças armadas das nações sob sua zona de influência e envia militares para socorrer os governos destes países, como na recente intervenção no Mali, em 2014. Caso o governante de ocasião em uma de suas ex-colônias aja de maneira que contrarie os interesses de Paris, as forças armadas francesas se juntam ao redor dos líderes de oposição, a fim de derrubar o regime. O exemplo mais visível desse tipo de ação é o assassinato de Thomas Sankara, presidente de Burkina Faso, em 1987.

A Françafrique teve início na 5 República Francesa, em 1958, no Governo de Charles de Gaulle, passando por todos os governos seguintes até o atual governo de Emmanuel Macron. Entretanto, o auge desse conjunto de ações ocorreu nos governos de François Mitterrand (1981-1995) e Jacques Chirac (1995-2007). Durante boa parte da segunda metade do século XX, o principal nome por trás da implementação das políticas que visavam manter as nações africanas de colonização francesa dentro da zona de influência de Paris foi Jacques Foccart.

Este empresário e político francês foi assessor dos presidentes De Gaulle e Georges Pompidou para assuntos africanos nas décadas de 1960 e 1970 e após, aconselhou os presidentes franceses seguintes. Por possuir negócios com inúmeras ex-colônias francesas na África, ele conhecia como poucos o ambiente político da África Ocidental e do Norte da África. Esse conhecimento foi determinante para perseguir os interesses franceses no continente africano, ainda que isso custasse o desenvolvimento das ex-colônias e de suas sociedades.

OBRIGAÇÕES

As obrigações que a França submeteu esses países incluem: 

  • Pagar pela infraestrutura que a França construiu durante a colonização. 
  • Manter 50 por cento de suas reservas estrangeiras no Tesouro francês. Curiosamente, esses países só podem acessar 15% de suas reservas a cada ano. Se eles precisam de mais, eles têm que pedir emprestado o seu próprio dinheiro. 
  • A França tem o primeiro direito de comprar quaisquer recursos naturais descobertos. 
  • Empresas francesas têm direitos sobre todas as licitações de compras governamentais 
  • Oficiais militares superiores são treinados na França. 
  • A França tem o direito de implantar bases militares nos países africanos 
  • Os países têm que fazer do francês a língua oficial.
  • Utilização do Franco CFA como moeda oficial. 
  • As ex-colônias não podem fazer alianças militares com outros países sem a aprovação da França. 
  • Ex-colônias são obrigadas a unir forças com a França em caso de uma guerra ou uma crise global.

VISÃO AFRICANA

Mamadou Koulibaly, ex-ministro das Finanças e presidente do Parlamento da Costa do Marfim e agora professor de economia, diz que a ligação do franco CFA ao euro desencoraja as empresas a investir. “O franco CFA não favorece as exportações e o comércio”, diz ele. “Não favorece a industrialização, não mantém os preços altos, o que não faz sentido em um mundo globalizado.”

Em comparação com outros países, o crescimento na zona CFA foi menor na última década. Isso se deve em parte aos altos custos de fazer negócios em uma moeda vinculada ao euro e às políticas de crédito rígidas na zona CFA.

Sanou Mbaye, economista senegalês e ex-funcionário do Banco Africano de Desenvolvimento, diz que os altos preços de exportação e o lento crescimento limitaram os investimentos da China, ele diz que, “As exportações para a China e o comércio com a China são mais devagar na zona CFA do que no resto da ÁFRICa”.

Se você não tem mais controle sobre sua moeda como nação, não tem mais controle sobre o que produz, consome ou troca.

Em 2019, oito países da África Ocidental que utilizam o Franco CFA começaram um movimento para ter uma moeda independente dos franceses, porém o lançamento dela foi adiado, mas a insatisfação dos africanos ainda continua.

VISÃO FRANCESA

Segundo os franceses, o debate em torno do franco CFA é diferente de um “imposto colonial” implementado pela França em suas ex-colônias africanas, também segundo eles esses países são livres para romper o vínculo monetário com a França, para organizar sua própria zona monetária. Segundo Michel Sapin, ex-ministro francês das finanças.“A França garante a estabilidade do franco CFA. Ela não é uma moeda francesa, ela depende da vontade dos africanos”. 

Conclusão

Por fim, ainda que o papel da França tenha diminuído desde os anos 50 do século XX, seus esforços em manter sua zona de influência na África mostram-se eficientes, com os seus interesses estando protegidos nas regiões da África Ocidental, Central e Norte da África. Entretanto, o custo financeiro, social e político ainda é pago por suas ex-colônias, que, afetadas pelo subdesenvolvimento e corrupção, permanecem virtualmente colonizadas.